Por falar em poesia e por ter falado antes em Camões, segue um aperitivo de Os Lusíadas, uma obra-prima da literatura universal. Os Lusíadas é uma epopéia, narrando as aventuras de Vasco da Gama e outros heróis portugueses, atores das grandes navegações. Abaixo, apenas um pequeno trecho do Canto 10 — o Wikisource é um bom lugar para ler o texto completo de Os Lusíadas, mas você também pode obtê-lo no Projeto Gutenberg (HTML ou texto puro) ou na Biblioteca Virtual do Estudante de Língua Portuguesa (HTML ou PDF).
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Assi foram cortando o mar sereno,
Com vento sempre manso e nunca irado,
Até que houveram vista do terreno
Em que naceram, sempre desejado.
Entraram pela foz do Tejo ameno,
E à sua pátria e Rei temido e amado
O prémio e glória dão por que mandou,
E com títulos novos se ilustrou.
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Nô mais, Musa, nô mais, que a Lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
Não no dá a pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Düa austera, apagada e vil tristeza.
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E não sei por que influxo de Destino
Não tem um ledo orgulho e geral gosto,
Que os ânimos levanta de contino
A ter pera trabalhos ledo o rosto.
Por isso vós, ó Rei, que por divino
Conselho estais no régio sólio posto,
Olhai que sois (e vede as outras gentes)
Senhor só de vassalos excelentes.
