Brás, Bexiga e Barra Funda é um livro de contos que aborda o cotidiano das famílias de imigrantes italianos na cidade de São Paulo. Trata-se da obra mais conhecida do escritor Antônio Castilho de Alcântara Machado d’Oliveira (1901-1935). Filho de importante família paulista, Alcântara Machado formou-se em direito e exerceu a profissão de jornalista. Faleceu prematuramente, quando já ensaiava os primeiros passos de uma carreira política promissora. Legou uma obra literária modernista em que se sobressaem justamente os contos.
Você pode ler o livro na Internet, clicando aqui (no Wikisource) ou aqui (na Biblioteca Virtual do Estudante de Língua Portuguesa).
O nome do autor é Fábio Fernandes, um Viajante Imóvel do Overmundo. Mas este post é para falar do seu Pequeno dicionário de arquétipos de massa e acho que já falei demais. Melhor deixar o Fábio falar…
O Monstro
Não fui eu. Nem conhecia essa menina. Não faço essas coisas, imagina, uma menina tão novinha, tinha o que, nove anos? Oito? Imagina, sou casado, tenho um filho quase da idade dela, pelo amor de deus, seu delegado. Doutor delegado, desculpe. Eu também sou doutor, o senhor sabe. Clínico geral. Dezesseis anos já. Mas não fui eu. Eu nunca faria uma coisa dessas, coitadinha, estuprar a menina e depois afogá-la no rio? Que barbaridade, que crueldade, quem fez isso tem que pagar, tem que sofrer muito na cadeia. Virar mulher na cela. Ou coisa pior. É, a vida é assim. Coitada da menina, tão novinha, tão bonitinha, morrer assim tão machucadinha, apertadinha, sufocada. Estrangulada e afogada, tadinha. Tão lindinha. Como eu sei que ela foi estrangulada antes? O senhor mesmo disse, não disse? Não? (Autor: Fábio Fernandes. Fonte: Pequeno dicionário de arquétipos de massa e Overmundo. Licença: Atribuição / Uso Não-Comercial / Compatilhamento pela mesma licença 2.5 Brasil)
Por falar em poesia e por ter falado antes em Camões, segue um aperitivo de Os Lusíadas, uma obra-prima da literatura universal. Os Lusíadas é uma epopéia, narrando as aventuras de Vasco da Gama e outros heróis portugueses, atores das grandes navegações. Abaixo, apenas um pequeno trecho do Canto 10 — o Wikisource é um bom lugar para ler o texto completo de Os Lusíadas, mas você também pode obtê-lo no Projeto Gutenberg (HTML ou texto puro) ou na Biblioteca Virtual do Estudante de Língua Portuguesa (HTML ou PDF).
144
Assi foram cortando o mar sereno,
Com vento sempre manso e nunca irado,
Até que houveram vista do terreno
Em que naceram, sempre desejado.
Entraram pela foz do Tejo ameno,
E à sua pátria e Rei temido e amado
O prémio e glória dão por que mandou,
E com títulos novos se ilustrou.
145
Nô mais, Musa, nô mais, que a Lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
Não no dá a pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Düa austera, apagada e vil tristeza.
146
E não sei por que influxo de Destino
Não tem um ledo orgulho e geral gosto,
Que os ânimos levanta de contino
A ter pera trabalhos ledo o rosto.
Por isso vós, ó Rei, que por divino
Conselho estais no régio sólio posto,
Olhai que sois (e vede as outras gentes)
Senhor só de vassalos excelentes.
Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!
Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!
Sonho que sou Alguém cá neste mundo…
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a terra anda curvada!
E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho…
E não sou nada!…
Poesia de Florbela Espanca (1894-1930), publicada no Livro de Mágoas em 1919.